Quem prova uma pimenta biquinho pela primeira vez espera ardência e não encontra quase nenhuma. Vem um sabor adocicado, um aroma frutado e, no final, uma pergunta quase automática: isso aqui é pimenta mesmo?
É, sim — e o motivo pelo qual ela quase não arde é mais interessante do que a própria pergunta. A biquinho pertence exatamente à mesma espécie botânica da habanero, uma das pimentas mais ardidas que existem. A diferença entre as duas não está na espécie, está em um detalhe genético minúsculo que decide se a planta vai produzir capsaicina — a substância responsável pela sensação de ardor — ou não.
Este é o primeiro artigo de uma série que vamos publicar aqui no Sítio Flor de Pitanga percorrendo a escala de ardência das pimentas, do Capsicum mais manso até as recordistas mundiais. Começamos pela ponta mais suave porque ela expõe uma confusão comum: espécie e ardência não são a mesma coisa, e duas plantas quase idênticas geneticamente podem estar em pontas opostas da escala.
Pimenta biquinho é realmente uma pimenta?
Sim. A biquinho é uma variedade da espécie Capsicum chinense — a mesma espécie da habanero, da pimenta-de-cheiro, da pimenta-de-bode, da cumari-do-Pará e da murupi. Segundo a Embrapa Hortaliças, todas essas pimentas compartilham aroma marcante e frutado, mas a ardência varia de quase zero, como na biquinho, até extremamente picante, como na habanero.
A dúvida surge justamente por causa da ausência de ardor. No imaginário popular, pimenta e ardência andam juntas — mas botanicamente, o que define uma pimenta é o gênero e a espécie da planta, não a quantidade de capsaicina que ela produz.
A mesma espécie da pimenta mais ardida do mundo
Isso significa que, geneticamente, a biquinho está mais próxima da habanero do que costuma parecer à primeira vista. As duas dividem o mesmo patrimônio genético de espécie — uma manteve a capacidade de produzir capsaicina em grande quantidade, a outra praticamente perdeu essa capacidade.
O gene que desliga a ardência
A explicação já foi mapeada pela ciência. A produção de capsaicina depende de uma sequência de genes, e um dos mais estudados é conhecido como Pun1 — ele codifica a enzima responsável pelo passo final na fabricação da substância picante. Estudos publicados em periódicos científicos identificaram, em populações não ardidas de Capsicum chinense, uma pequena deleção de apenas 4 pares de bases nesse gene — o suficiente para interromper a leitura da informação genética antes da hora e impedir que a enzima funcione.
Na prática: a planta continua sendo geneticamente uma prima muito próxima da habanero, só que carrega uma versão “desligada” do gene que produziria a ardência. Um detalhe pequeno no DNA, com efeito enorme no paladar.
Como reconhecer uma pimenta biquinho
Tamanho e formato
A biquinho tem frutos pequenos, com cerca de 3 cm de comprimento, arredondados e terminando em uma ponta afilada — o “bico” que dá nome à variedade. A casca é lisa e brilhante, a polpa é fina e o interior é preenchido por uma quantidade generosa de sementes, de acordo com a caracterização da Embrapa Hortaliças.
Cores conforme a maturação
Ainda verde, o fruto tem coloração clara. Ao amadurecer, pode assumir três cores diferentes dependendo da cultivar: salmão, amarelo ou vermelho. É comum ver os três tons na mesma planta ao mesmo tempo, porque a maturação não acontece de forma sincronizada em todos os frutos.
Qual é o nível de ardência da pimenta biquinho?
Na escala Scoville — a métrica usada para medir a concentração de capsaicina em pimentas — a biquinho fica entre 80 e 500 SHU, segundo dados da Embrapa Hortaliças. Para efeito de comparação: a jalapeño, que entra na próxima semana desta série, varia de aproximadamente 2.500 a 8.000 SHU. Já a habanero, que já cobrimos por aqui, chega de 150.000 a 350.000 SHU.
Ou seja: a biquinho abre a escala quase no zero, enquanto a habanero está centenas de vezes mais concentrada em capsaicina. É essa distância que torna o parentesco entre as duas tão contraintuitivo.
De onde vem a pimenta biquinho
A espécie Capsicum chinense tem origem nas Américas — provavelmente na região amazônica e no Caribe — e foi domesticada por povos originários muito antes da chegada dos europeus. O nome “chinense” é, na verdade, um engano histórico: o botânico que descreveu a espécie em 1776 acreditou que ela vinha da China, por causa de sua presença na culinária chinesa da época, mas plantas do gênero Capsicum são todas originárias do continente americano.
A variedade biquinho como conhecemos hoje tem uma história bem mais recente e bem brasileira: começou a ser comercializada no Triângulo Mineiro, em Minas Gerais, no início dos anos 2000, e de lá se espalhou para o restante do país. Hoje é encontrada em feiras, supermercados e conservas artesanais em praticamente todo o Brasil.
Como cultivar pimenta biquinho
Clima e sol
É uma planta que pede calor. Prefere clima quente e úmido, não tolera geadas nem temperaturas baixas por muito tempo, e precisa de pelo menos 4 a 6 horas de sol direto por dia para se desenvolver bem. Essa exigência é parecida com a de outras pimentas Capsicum chinense — inclusive a habanero — o que faz sentido dentro do que já discutimos sobre cultivo de pimenta em regiões muito quentes, caso do Ceará.
Solo e irrigação
O solo ideal é solto, bem drenado, fértil e rico em matéria orgânica. A rega deve ser feita uma vez por dia, sem encharcar — de preferência pela manhã cedo ou no fim da tarde, quando a evaporação é menor. Pode ser cultivada tanto em canteiro quanto em vaso, desde que o substrato tenha boa quantidade de matéria orgânica.
Do plantio à primeira colheita
A Embrapa Hortaliças desenvolveu a cultivar BRS Moema, do grupo biquinho, com plantas uniformes, alta produtividade e resistência a duas ameaças comuns na cultura: o nematoide-das-galhas (Meloidogyne javanica) e o vírus do mosaico amarelo da pimenta (PepYMV). Nas condições da região Centro-Oeste do Brasil, a colheita dos frutos maduros começa cerca de 90 dias após o transplantio das mudas para o campo, com espaçamento recomendado de 1,20 m entre linhas e 0,80 m entre plantas — cerca de 10 mil plantas por hectare — e produtividade média de 20 toneladas por hectare ao longo de um ciclo de colheita de seis meses.
Para que serve a pimenta biquinho na cozinha
Por não ter ardência relevante, a biquinho é uma das pimentas mais versáteis da cozinha brasileira. É usada inteira em conservas de vinagre ou azeite, moída ou fatiada em patês à base de maionese, ricota ou requeijão, e também aparece em geleias, saladas e acompanhamentos para carnes e peixes. A recomendação da Embrapa é usar sempre frutos maduros, firmes e crocantes — os murchos ou passados do ponto perdem sabor e aroma.
Perguntas frequentes
Pimenta biquinho arde?
Praticamente não. Ela fica entre 80 e 500 SHU na escala Scoville, uma das faixas mais baixas entre as pimentas cultivadas no Brasil. Na prática, a maioria das pessoas não sente ardor algum ao comer.
Por que a pimenta biquinho não arde se é da mesma espécie da habanero?
Porque carrega uma mutação no gene ligado à produção de capsaicina, o Pun1, que interrompe a fabricação da enzima responsável pela ardência. A espécie é a mesma; essa variação genética específica é que “desliga” a picância.
Qual a diferença entre pimenta biquinho e cambuci?
São espécies diferentes, apesar de ambas serem suaves. A biquinho é Capsicum chinense, da mesma espécie da habanero. A cambuci é Capsicum baccatum, com formato característico de “chapéu de bispo” e um sabor adocicado próprio
Quanto tempo a pimenteira biquinho leva para começar a produzir?
Segundo dados da Embrapa Hortaliças para a cultivar BRS Moema, a colheita dos primeiros frutos maduros começa cerca de 90 dias após o transplantio das mudas para o campo, em condições de cultivo no Brasil Central. O prazo pode variar conforme clima, manejo e região.
Pimenta biquinho pode ser cultivada em vaso?
Sim. É uma planta compacta, que costuma variar entre 40 cm e 1 metro de altura, e se adapta bem a vasos e jardineiras, desde que receba sol direto e um substrato rico em matéria orgânica.
Quais cores a pimenta biquinho pode ter quando madura?
Verde quando está imatura, e salmão, amarela ou vermelha quando madura, dependendo da cultivar. É comum encontrar as três cores na mesma planta em momentos diferentes de maturação.
Conclusão
A pergunta que abre este artigo tem uma resposta simples — sim, biquinho é pimenta — mas o caminho até essa resposta revela algo mais útil do que a curiosidade genética: ardência não é uma característica da espécie, é uma característica da variedade. Duas plantas quase idênticas no DNA podem ocupar pontas opostas da escala de ardência.
É esse tipo de contraste que vamos seguir explorando nas próximas semanas, subindo a escala pimenta por pimenta até chegar às recordistas mundiais.


